Especialistas analisam impacto de frota elétrica no abastecimento

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Dirigir um carro movido a eletricidade é uma experiência que poucos brasileiros já tiveram. Na terceira reportagem da série especial, o André Trigueiro mostra como é viver com um carro elétrico e o que poderia acontecer com o sistema energético do país se toda a nossa frota fosse abastecida nas tomadas.

Num país tropical, onde o sol é abundante, é possível abastecer o carro elétrico a partir do telhado da própria casa ou do escritório. O dono de uma casa em Jaguariúna, na região metropolitana de Campinas, instalou 20 metros quadrados de placas fotovoltaicas. Isso é o suficiente para ele abastecer uma moto elétrica, um carro elétrico e a própria casa.

Recarregar o carro na tomada leva até oito horas. O custo é de R$ 15.

“Considerando um carro que faça dez quilômetros por litro, a gasolina, a gente está falando já de um custo de aproximadamente R$ 0,40 por quilômetros rodado. E num carro elétrico você teria um custo de aproximadamente R$ 0,12, R$ 0,13 por quilômetro rodado”, explicou o empresário Leonardo Celli Coelho.

A autonomia é de 150 quilômetros. Uma vez por semana, o Leonardo precisa ir até são Paulo a trabalho. Mas desta vez, quem guiou foi o André Trigueiro.

“Eu já percebi que quando você coloca o pé no acelerador, ele sai mais rápido. É isso?”, perguntou o repórter.

“Sim. Isso deve-se ao famoso torque, o torque de um veículo elétrico ele é imediato. Se você pisar agora aí, afundar o pé, você vai colar no banco até a velocidade máxima do veículo”, explicou Leonardo.
Série JN mostra a evolução dos carros elétricos – autorrecarga (Foto: Reprodução/Globo)
Arte/G1

Tem acelerador, tem freio, não tem embreagem. Quando o motorista pisa no freio do carro elétrico ou simplesmente tira o pé do acelerador, o motor para de consumir energia e passa a funcionar como um gerador, transformando o movimento em energia elétrica, que vai para a bateria. O sistema também funciona em descidas. É uma autorrecarga.

“Se você quiser tirar um pouquinho o pé do acelerador ele já começa a carregar. Não é o freio, é desaceleração. Já começa a recarregar bateria”, diz Trigueiro.

A rodovia Bandeirantes tem a primeira rede intermunicipal de recarga do Brasil com dez eletropostos.

Foram percorridos 77 quilômetros e o consumo de eletricidade deu 6,3 quilômetros por quilowatt. Como fica isso numa equivalência a um motor convencional?

“Um custo de R$ 30 com combustível. Com R$ 30 eu conseguiria, pagando pela energia na minha residência hoje, eu poderia chegar a rodar até 300 quilômetros. Eu daria duas cargas completas na bateria desse veículo elétrico”, disse Leonardo.

O abastecimento é de graça. A distribuidora de energia usa os eletropostos para testes. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) regulamentou em junho a cobrança do serviço.

Mas é preciso ter paciência: uma hora para a carga total, ou meia hora, para 80% da bateria. Diminuir esse tempo é um dos desafios dessa tecnologia.

A empresa dá como certo o crescimento da frota de elétricos no Brasil e não vê riscos para o abastecimento do país.

“A gente tem projeções nossas que indicam que o impacto de um crescimento de carro elétrico não deve passar de 0,5% a 1%, 1,5% de aumento na carga de energia elétrica do país. Isso seria o equivalente a dez milhões de carros elétricos em 2030. Esse é o cenário mais agressivo que a gente tem, ou seja, é um crescimento muito gradual e que não deve gerar nenhum tipo de risco de abastecimento ou de falta de energia”, afirmou Rafael Lazzaretti, diretor de Estratégia e Inovação do Grupo CPFL.

Só que isso não é consenso.

“Eu acho que na geração nós temos problemas aí de limite de geração hidráulica, que hoje está existindo, temos até bandeira vermelha, e a distribuição creio que ela não está preparada para receber uma frota tão grande de carros elétricos”, afirmou Mário Leite Pereira Filho, líder do Laboratório de Equipamentos Elétricos e Ópticos do IPT.

O professor Alexandre Szklo fez uma estimativa levando em conta uma situação extrema: a eletrificação de toda a frota de veículos leves do Brasil.

“Isso representaria alguma coisa entre 15% a 20% da demanda de energia elétrica hoje no Brasil. Pelo lado da distribuição, nossos estudos têm indicado que a distribuição precisaria fazer investimentos, sobretudo na parte de transformadores para lidar com a sobrecarga associada a veículos elétricos”, disse Szklo, professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ.

O engenheiro Celso Novais, coordenador brasileiro do Programa Veículo Elétrico/Itaipu, estima em 30% o aumento no consumo de energia se toda a frota for elétrica, mas não vê problema nisso:

“O veículo elétrico pode ser comparado com um ar-condicionado de 12 mil BTUs. Qualquer casa que tiver condição de instalar um ar condicionado de 12 mil BTUs pode ter um veículo elétrico na garagem. Em suma, eu acho que não seria nenhum impacto significativo a entrada dos veículos elétricos no Brasil”.

Ele trabalha na maior hidrelétrica do brasil, que também entrou nessa corrida tecnológica…

Além dos vários tipos de carros elétricos, que podem ser compartilhados entre os funcionários, Itaipu desenvolveu em parceria com outras empresas ônibus, caminhões e até um avião elétrico tripulado.

“Eu penso que nos próximos dez anos vamos ter mais inovação nessa área de mobilidade do que o que ocorreu nos últimos 50”, disse Novais.

E o Brasil tem um diferencial importante quando o assunto é carro elétrico. Na hora da recarga, a maior parte da energia é limpa e renovável, vem principalmente das usinas hidrelétricas. Em países como Estados Unidos, Alemanha e China, os combustíveis fósseis são a principal fonte de energia, ou seja, quem anda de carro elétrico por lá continua poluindo, ainda que indiretamente.

Lembra do telhado solar do Leonardo? No carro elétrico dele, não entra energia suja.

“Existe uma satisfação e uma sensação de liberdade e independência incrível. E no final do dia, também, eu me sinto até orgulhoso de diretamente ter investido também na infraestrutura do país”, afirmou Leonardo.

Fonte: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/07/especialistas-analisam-impacto-de-frota-eletrica-no-abastecimento.html